Lá está o poço mais
temido da região, localizado em um terreno vazio, extenso, cheio de mato.
Existem diversas histórias sobre este lugar, dizem que quem cai nele e
quem tenta resgatar nunca mais volta, desaparece como mágica. O assustador é
que já tentaram enchê-lo de terra com vários caminhões, depositaram até entulho,
mas não tiveram sucesso.
Eu vivo próxima ao poço
com meus dois filhos, sempre o observo incomodada e perco o sono por causa dele.
Meu filho mais velho tem doze anos e minha pequena apenas um ano e meio, sempre
procurei mantê-los afastados daquele lugar.
O tal poço é cercado por
mato verde, um de seus lados é inclinado formando uma rampa para a escuridão.
Posso escutar constantemente conversas sobre o poço, mas ultimamente ninguém teve coragem de se aproximar dele, nem mesmo tentaram acabar com o sofrimento das famílias das pessoas
desaparecidas.
O dia está bonito,
observo distraída minha filha brincando na sala, saio de casa, ouço meu
cachorro latir sem parar, olho em direção ao poço vejo meu filho correndo para
lá, num impulso corro desesperada atrás dele, grito e peço para que pare,
mas ele parece não ouvir. De repente ele
para e se vira pra mim com um olhar amável e um sorriso lindo ... do nada
sua expressão muda e ele vai em direção
ao poço e pula. Fico paralisada, as lágrimas correm pelo meu rosto, não sei o
que fazer!
Os dias passam longos, tristes e cinzas.
Ninguém quer ir salvar meu menino.
Sinto-me impotente nesta cidade
esquecida do mundo.
Mais um dia acordo, olho no relógio e
percebo que dormi demais, cadê minha garotinha?
O pavor reaparece ao ouvir os latidos
do cachorro se distanciando na direção do poço.
Vou em direção ao som com a mente
confusa e cada vez mais aproximando daquele lugar sinistro, vejo minha filha
descendo a rampa e dentro do poço vejo meu cachorro envolvido em uma lama negra,
numa busca desesperada pra sair dali, tento ser rápida e me aproximo, mas é
tarde demais.... Minha criança cai, o cachorro tenta salvá-la jogando-a pra cima, mas sem sucesso, eles são engolidos pela lama e tudo desaparece dando lugar a uma
profunda escuridão.
Passam-se os dias estou mais uma vez aqui sentada
, sem forças, sem ter noção do tempo .
Sinto-me só, nada mais
faz sentido desde que fiquei sem minhas crianças.
De minha janela observo o
causador da minha dor, vou enfrentá-lo!
Ele está cada vez mais
próximo... paro e encaro a sombra negra que envolve seu interior, não parece
tão assustador !
Pulo!,
Sinto o vento batendo em
meu rosto, sinto frio... silêncio.....
Hum ... sinto meu corpo todo dolorido,
um clarão arde meus olhos e antes que eu raciocine ouço aquela voz masculina :
— Como vai querer viver aqui?
....





